A relação entre meio ambiente, mercado financeiro e política regulatória nunca foi tão estreita. Em 20 de outubro de 2025, cerca de 30 investidores institucionais globais — responsáveis por mais de US$ 3 trilhões em ativos — assinaram a chamada Belém Investor Statement on Rainforests, exigindo que países com florestas tropicais adotem políticas robustas para interromper e reverter o desmatamento até 2030.
Esse movimento coloca em evidência um novo vetor de risco e de oportunidade para o mercado brasileiro — especialmente para o segmento de commodities, agronegócio, papel/celulose, mineração e para toda a cadeia de fornecimento ligada à floresta e ao uso da terra. Para o assessor de investimentos, esse contexto exige mais do que acompanhamento de tendências: requer tradução — em termos de alocação, comunicação e orientação para clientes — de como essas pressões ambientais se transformam em impactos financeiros, regulatórios e reputacionais.
O contexto global e o Brasil no centro
O apelo dos investidores
Os signatários da declaração assinalam que “o desmatamento tropical e a perda de biodiversidade representam riscos materiais para nossas carteiras” e demandam “políticas, quadros regulatórios e financeiros que assegurem proteção das florestas e estabilidade econômica”.
O fato de tal declaração ter sido feita na véspera da COP30 — que será realizada no Brasil — reforça a centralidade brasileira nessa agenda global. O relatório mais recente da Forest Declaration Assessment aponta que, em 2024, o mundo perdeu 8,1 milhões de hectares de floresta, considerando agricultura, incêndios e outros fatores.
O papel do Brasil
Com a Amazônia como ativo ambiental global, o Brasil ocupa posição sensível: potencial exportador, fornecedor de commodities e alvo de demanda internacional por credenciais ESG. Isso gera tanto oportunidade — empresas alinhadas ganhando acesso premium a mercados — quanto risco — aquelas descoladas desses padrões podem enfrentar barreiras comerciais, boicotes e desvalorização de ativos.
Setores-chave impactados e implicações para o mercado
Agronegócio e commodities agrícolas
O agronegócio brasileiro, que responde por significativa parcela das exportações, está na interface desta discussão. Pressões internacionais por rastreabilidade de origem, ausência de desmatamento e práticas de uso da terra resilientes tornam-se fatores de avaliação não mais apenas ética, mas de mercado.
Para o assessor, isso significa: as empresas exportadoras de soja, carne, milho, entre outras, que não adaptarem cadeia ou certificação podem ver riscos elevados de acesso a mercados ou necessidade de compensações de custo mais altas (compliance, certificações, logística).
Mineração, papel/celulose e floresta-industrial
Empresas que atuam em madeira, celulose, mineração ou que funcionam em zonas florestais também passam a responder a critérios ambientais mais rígidos. Questões como emissão de carbono, impacto ambiental e rastreabilidade entram na precificação e no risco de crédito.
Finanças e capital global
Fundos ESG e investidores institucionais incorporam taxas de risco diferenciadas para ativos que não demonstram alinhamento com critérios ambientais e de biodiversidade. Um relatório anterior apontou que empresas com cadeia ligada ao desmatamento poderiam perder até 26% de seu valor até 2030.
Assim, o assessor que atua com clientes de alta renda ou institucionais deve entender como essas métricas influenciam valuations, spreads de crédito e perspectivas de liquidez.
Indicadores e variáveis que merecem monitoramento
Para transformar este tema em ação prática, o assessor deve acompanhar alguns indicadores-chave:
- Taxa de desmatamento oficial no Brasil, inclusive por tipo de bioma (Amazonia, Cerrado).
- Barreiras comerciais internacionais: leis de importação com exigências ambientais, como a regulação da União Europeia sobre produtos vinculados a desmatamento.
- Exposição de empresas e cadeias produtivas: graus de rastreabilidade, certificação (ex: RTRS, ISCC), conteúdo de risco florestal.
- Fluxos de investimento internacional em setores de risco: fundos global ESG, rating de crédito das empresas, notícias de boicotes.
- Valor de prêmios de risco ou spreads de crédito vinculados a empresas expostas à floresta.
- Iniciativas regulatórias nacionais: programas de pagamento por serviços ambientais, criação de fundos florestais, mudanças em legislação de uso da terra.
Estratégias de alocação para carteiras de clientes
Proteção e mitigação de risco
- Reduzir ou evitar exposição dominante em empresas com alto grau de risco-floresta ou desempenho ESG fraco.
- Preferir emissores que já demonstrem rastreabilidade, certificação e bom histórico de fornecimento.
- Em renda fixa, avaliar debêntures verdes ou sustentáveis com critérios transparentes de uso de recursos.
Exploração de oportunidade
- Identificar empresas que ganham com credenciais ESG: exportadoras já alinhadas, fornecedoras de soluções sustentáveis, projetos de energia florestal.
- Considerar fundos setoriais ou ETFs que tratem de “nature-based solutions”, conservação ou manejo florestal sustentável.
- Avaliar crédito privado ou infraestrutura que se beneficia da transição ambiental (ex: reflorestamento, bioeconomia).
Comunicação e escalonamento
- Explicar ao cliente que o tema “desmatamento” não é apenas ético, mas impacto real em valor de mercado e risco.
- Utilizar cenários: “Se nova lei europeia proibir importação de produtos ligados ao desmatamento, a empresa X terá custo extra de compliance”.
- Preparar reunião semestral para revisar impressões da exposição à floresta e atualizar planos.
O papel do assessor no novo panorama
O assessor de investimentos desempenha funções ampliadas:
- Educador: traduzir linguagem técnica (rastreabilidade florestal, certificação, legislação) em impacto direto no patrimônio.
- Curador de produto: selecionar ativos com análise ESG robusta e risco-floresta avaliado.
- Monitor de cenário: acompanhar regulatórios, relatórios de impacto ambiental e negociar com gestores ou clientes ajustes de exposição.
- Estratégia de longo prazo: bater-apoio que o cliente não apenas “tolerará” essa variabilidade, mas que a estratégia incorpora esse vetor como elemento vital de alocação.
Checklist prático para reuniões com clientes
| Item | Pergunta orientação |
| Exposição do cliente | “Quais empresas da carteira dependem de exportação de commodities ligadas à floresta?” |
| Avaliação ESG | “Essas empresas têm certificações, relatórios de rastreabilidade e transparência?” |
| Cenário regulatório | “Existe exposição ao risco de legislação internacional ou boicote por práticas florestais?” |
| Fundos/ETFs | “Os produtos de investimento utilizados incorporam filtros de desmatamento ou critérios de ‘nature-based solutions’?” |
| Exploração de oportunidades | “Há empresas ou fundos na carteira que podem se beneficiar dessa agenda (energia renovável, bioeconomia, manejo florestal)?” |
| Comunicação regular | “O cliente entende que esse tema pode alterar valuations, spread de crédito e liquidez — e qual o impacto na alocação?” |
Desmatamento é assunto estratégico
O apelo global para que o desmatamento seja contido coloca o Brasil — e os profissionais de investimentos que atuam nele — frente a uma bifurcação estratégica: ou antecipamos os efeitos desse movimento (positivos e negativos) ou ficamos na retaguarda, reagindo a cada choque regulatório. Para o assessor de investimentos, não basta “estar atento”: é imprescindível ser proativo, integrando este vetor ambiental à análise de risco-retorno, à curadoria de ativos e à comunicação com o cliente.
Em suma: o desmatamento não é mais um assunto apenas para ONGs ou políticas públicas — tornou-se parte da equação financeira. E o assessor que entende isso cedo está melhor posicionado para ajudar seus clientes a construir carteiras que resistam à nova correlação entre floresta, regulação e mercados.
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